Aringa do Macombe

Reminiscências, estados de alma e impressões do último Muzungo da Zambézia temporariamente em trânsito pela Corte... Expediente para domacombe@yahoo.com

sexta-feira, abril 07, 2006

Convite em causa alheia*

As Edições Praedicare convidam para a sessão de lançamento do livro de André Azevedo Alves

Ordem, Liberdade e Estado
Uma reflexão crítica sobre a filosofia política em Hayek e Buchanan

a ter lugar no Rivoli (Cafetaria-Bar, 3º piso) no Porto, no próximo dia 12 de Abril de 2006, às 21.30, com apresentação de Paulo Castro Rangel e Rui de Albuquerque. A sessão será presidida por José Manuel Moreira.


* A avaliar pela qualidade dos posts do autor, esta reflexão crítica é imperdível. Pena é que não esteja prevista apresentação para Lisboa mas, bem vistas as coisas, o Porto é a cidade indicada para se falar de Hayek.

quinta-feira, abril 06, 2006

Portugeese Broederbond?

E, por falar em MCB, a não perder a série "Os colonialistas".

Realpolitik

O apelo, já antigo, de Miguel Castelo Branco é fundamental para uma actualização de perspectivas e modelos. Daqui a uns anos, talvez venha a ser catalogado na categoria dos textos fundadores. Para já, vale a pena meditar nos diagnósticos e desafios que aqui são colocados a todos aqueles que se incluem na “Direita”.

Direita moderna e messianismos, anacronismos e outros reaccionarismos

É sabido encontrarmo-nos prestes a sair de uma terra de ninguém epocal. Para trás ficaram os grandes antagonismos ideológicos que estiveram na origem de uma guerra mundial - que matou os fascismos - e de uma Guerra Fria, que erradicou o comunismo. Parece termos voltado, definitivamente, a página à herança do século XIX e deitado para o baú das antiqualhas as paixões mortais que assolaram o século XX.
A querela entre esquerdas e direitas já não se coloca, como antes, entre capitalismo e socialismo(s) - em que se inseriam, afinal, os fascismos - entre adeptos da Liberdade e defensores das «liberdades», monárquicos e republicanos, materialistas e espiritualistas, estatistas e civilistas, individualistas e colectivistas, nacionalistas e internacionalistas ou entre elitistas e democratistas.
Se bem que ainda se justifique plenamente a dicotomia entre Esquerda(s) e Direita(s), esta demarcação recobre hoje mais aspectos de sensibilidade e outros que dizem respeito a problemáticas próprias da antropologia filosófica e antropologia política - a ideia de homem e de comunidade, de justiça e bem comum - que a um «credo» pronto a-usar que foi característica dominante do fanático século dos totalitarismos. Há hoje a percepção clara que a divisão entre as famílias políticas se localiza mais entre aqueles que aceitam a civilização presente - i.e, a dos direitos do homem, da livre associação e participação dos cidadãos, da livre opinião - e aqueles que a negam. Já não se trata tanto de uma luta entre democracia e anti-democracia (nos seus estádios diferenciados, mas relacionados: autoritários e cesaristas, totalitários e concentracionários), mas de uma luta pela interpretação da democracia. Sabemos que o termo foi perdendo substância, por tão usado e reivindicado por aqueles que, no fundo, a ele se queriam associar. Nos anos 50, a URSS reivindicava-se de uma «democracia popular» - cobrindo com o ridículo as democracias liberais com o apodo de «democracias burguesas»- ; os regimes autoritários conservadores auto-crismavam-se de «democracias orgânicas» e pelo terceiro mundo campeavam as «democracias socialistas», «democracias paternalistas» e outros arranjos semânticos exóticos. É evidente que foi a forma «burguesa» (liberal) que triunfou. Hoje, só franjas insignificantes e sem capacidade interventiva ousam atacar a democracia. É precisamente em torno do tipo de democracia (burguesa) que se travam os maiores embates. Aparentemente, dir-se-ia uma querela bizantina, mas não é. Se todos aceitam a democracia (burguesa) - protagonizada por partidos políticos, aceitando a rotatividade produzida pelo voto livre dos cidadãos - por que razão se mantêm, vivas e bem activas, forças da extrema-esquerda à extrema-direita? É tão evidente o Bloco de Esquerda aceitar a democracia burguesa como o Sr. Le Pen. Submetem-se ambos a sufrágio, participam na vida do regime democrático e lutam por clientela no mercado de opinião, aqui como em França. A universalização da democracia (burguesa) é um dado de civilização, pelo que quem dele se afasta perde direito à cidadania plena.
A direita portuguesa é tradicionalmente autoritária, conservadora, confessional, paternalista e holística, pelo que não ousa identificar-se com a acidentalidade de um regime que vive do quotidiano. O facto de haver uma «direita sociológica» sem partidos assumidamente de direita é demonstrativa desta aversão. Imputa-se ao PREC o banimento da direita, à Constituição a danação de qualquer partido que contrarie o espírito da III República, mas a verdade é que essa direita se especializou mais na tertúlia opinativa - e no espírito do contra - pelo que se auto-excluiu da vida pública. Fora do tempo, contra o tempo, é uma torre de marfim que olha desdenhosamente para a realidade vibrátil e mantém-se presa de purismos sem ponto de aplicação. Essa direita - alguma até recusa identificar-se como tal - apresenta-se de três formas:
- A direita messiânica, que olha para o futuro como os maoístas dos idos de 60, acredita numa «revolução castigadora» que reponha a «ordem natural» e traga um «homem novo» incorruptível, meio monge, meio soldado. É, no fundo, uma herança delida e ajustada ao tempo presente do fascínio que as gerações dos anos 30 e 40 experimentaram pelo fascismo e pelo nacional-socialismo. Nunca teve qualquer expressão política e teve sempre, a alimentá-la, penas literárias de mérito. O grande e trágico erro desses eternos cultores da juventude é o da espera (messiânica) e o facto de desconhecerem que os factores que desencadearam a Grande Crise já não se podem reproduzir. O capitalismo e a cultura democrática (burguesa) são hoje tão fortes que tais posições serão sempre, pese a boa fé e ardor dos seus defensores, relegadas para posições excêntricas.
- A direita anacrónica, que julga possível reeditar um novo salazarismo sem Salazar, numa época de esvaziamento dos atributos tradicionais da soberania do Estado, de globalização e intensa circulação de ideais, mercadorias e pessoas. Sendo uma «direita» residual, está confinada a um dimensão memorialística ou a assomos de prédica anti-regime que muito pouco diferem da «conversa de taxista».
- A direita reaccionária, que discute com ardor as excelências da Constituição Tradicional, as liberdades municipais e sociais, sonha com a nunca existente aliança entre o Trono e o Altar, com uma sociedade rural e fechada, bem como uma monarquia «miguelista». O Integralismo Lusitano era, já nos anos 10 do século XX, uma excentricidade fora do tempo, mas mantém-se hoje, com cosméticas mais ou menos convincentes, no arsenal de convicções de muitos.
Ora, uma direita moderna aceita o tempo presente como ele é, é democrática e elitista (i.e, meritocrática), não estatista (i.e, confia na iniciativa individual, conquanto moderada pelo interesse social), aceita o capitalismo, é neutra no que concerne à confessionalidade dos cidadãos (mas não laica) e respeitadora das liberdades públicas, individuais e privadas. É, no fundo a direita que temos na Alemanha, na Itália e em França. Se a direita quer intervir, se quer ter voz e capacidade de intervir (legislar e governar), tem de aceitar o repto. A direita moderna pode ser nacionalista - pois o liberalismo oitocentista também o foi - pode ser intervencionista e pode até defender posições de maior severidade em matérias que se relacionem com a manutenção da ordem e da ecologia social. A direita moderna deve ser Ocidental e possuir a agudeza suficiente para compreender que qualquer pensamento estratégico na prossecução dos objectivos permanentes do Estado – independência e liberdade nacional, capacidade de agir na política mundial – deve aceitar o facto de vivermos a “Era Americana”. Sem isto, nada a fazer.

Living with liberalism

On Daniel Mahoney's Bertrand de Jouvenel: The Conservative Liberal and the Illusions of Modernity

When reflecting on the political options available to us in the twentieth and twenty-first centuries, I often say to myself with a certain resignation, “Liberalism—it’s all we’ve got.” What I mean, of course, is that for anyone in the modern world who wants a sane and decent political order, the only realistic choice is liberalism in the classic sense—a regime dedicated to individual liberty based on democratic institutions (liberal democracy, in other words), with a social order shaped by mass culture and an economy driven by industrial and technological progress. Those who reject this order entirely—utopian dreamers, nostalgic reactionaries, anarchists—may get credit for defiant courage, but they usually wind up doing more harm than good. We are left with little choice but to live with liberalism and to make it as noble and as just as we can. [...]

[Daniel J. Mahoney, professor of political science at Assumption College] argues for something called “conservative liberalism,” which he finds in the political thought of such seemingly disparate figures as Alexis de Tocqueville, Alexander Solzhenitsyn, Charles de Gaulle, Raymond Aron, Aurel Kolnai, Leo Strauss, Eric Voegelin, Pierre Manent, and now Bertrand de Jouvenel. Mahoney’s thesis is that these figures are genuine lovers of liberty, but they are not “liberals” in the sense of embracing the philosophical liberalism of John Locke, Immanuel Kant, J. S. Mill, John Dewey, Isaiah Berlin, or John Rawls. Conservative liberals reject philosophical Liberalism because it fosters the “illusions of modernity”—a notion of autonomy which admits no higher authority than the human will (“the self-sovereignty of man”) as well as blind worship of progress that destabilizes society, undermines virtue, and tempts modern man with utopian ideologies that lead to totalitarian systems of government.

Instead of following progressive liberalism, conservative liberals draw upon pre-modern sources, such as classical philosophy (with its ideas of virtue, the common good, and natural right), Christianity (with its ideas of natural law, the social nature of man, and original sin), and ancient institutions (such as common law, corporate bodies, and social hierarchies). This gives their liberalism a conservative foundation. It means following Plato, Aristotle, St. Augustine, St. Thomas Aquinas, and Edmund Burke rather than Locke or Kant; it usually includes a deep sympathy for the politics of the Greek polis, the Roman Republic, and Christian monarchies. But, as realists, conservative liberals acknowledge that classical and medieval politics cannot be restored in the modern world. And, as moralists, they see that the modern experiment in liberty and self-government has the positive effect of enhancing human dignity as well as providing an opening (even in the midst of mass culture) for transcendent longings for eternity. At its practical best, conservative liberalism promotes ordered liberty under God and establishes constitutional safeguards against tyranny. It shows that a regime of liberty based on traditional morality and classical-Christian culture is an achievement we can be proud of, rather than merely defensive about, as trustees of Western civilization.


Robert Krainak, The New Criterion, Volume 24, December 2005, page 83

quinta-feira, novembro 10, 2005

Al Qaeda queria explodir o Cristo-Rei em Almada*

Documentos mantidos em sigilo pela Polícia Judiciária revelam que a Al Qaeda, organização terrorista de Osama Bin Laden, ordenou a execução de um atentado em Portugal. O alvo da acção seria a estátua do Cristo-Rei, localizada em Almada.
De acordo com informações obtidas hoje em Lisboa, a ordem de Bin Laden decorreu do ódio que o saudita nutre por símbolos monumentais católicos, que segundo ele representam "um símbolo da globalização dos infiéis".
Demolidor de ídolos e iconoclasta como os talibãs que explodiram estátuas de Buda no Afeganistão, ele destacou dois mujahedins para o sequestro e uso de um avião que seria lançado contra a estátua "símbolo dos infiéis cristãos".
Os registos da polícia Judiciária dão conta de que os dois terroristas chegaram ao Aeroporto Internacional da Portela em 4 de Setembro, Domingo, às 21h47m, no vôo da Air France procedente do Canadá, com escala em Londres.
A missão começou a sofrer embaraços já no desembarque, quando a bagagem dos muçulmanos foi extraviada. Após quase seis horas de peregrinação por diversos guichés e dificuldade de comunicação em virtude do Inglês fortemente marcado por sotaque árabe, os dois saem do aeroporto, aconselhados por funcionários da TAP a voltar no dia seguinte, com intérprete.
A Polícia Judiciária investiga a possibilidade de eles terem apanhado um táxi pirata na saída do aeroporto, pois o motorista percebeu que eram estrangeiros e rodou uma hora e meia dando voltas com eles pela cidade, até abandoná-los em lugar ermo do Casal Ventoso. Aí, acabaram por ser assaltados e espancados por um grupo de toxicodependentes desesperados.
Eles conseguiram ficar com alguns dólares que tinham escondido em cintos próprios para transportar dinheiro e apanharam boleia num camião que fazia distribuição de garrafas de gás.
Na segunda-feira, às 7h33m, graças ao treino de guerrilha que receberam nas cavernas do Afeganistão e nos campos minados da Somália, os dois terroristas conseguem chegar a um hotel do Estoril. Alugaram um carro na Avis e voltaram ao aeroporto, determinados a sequestrar um avião e atirá-lo bem no meio dos braços abertos do Cristo-Rei.
Enfrentam um congestionamento monstruoso na 2ª circular e ficam mais de 3 horas bloqueados no Campo Grande por causa de uma manifestação de estudantes e professores em greve, e na Av. Do Brasil são-lhes roubados os relógios por um gang da Zona J.
Às 12h30m, resolvem ir para o Centro da cidade e procuram uma casa de câmbio para trocar o pouco que sobrou de dólares. Recebem notas de 100 Euros falsas. Por fim, às 15h45m chegam ao aeroporto da Portela para sequestrar um avião. Os pilotos da TAP estão em greve por mais salário e menos horas de trabalho.
Os controladores de vôo também pararam (querem equiparação aos pilotos). O único avião na pista é da AIR PORTUGÁLIA, mas está sem combustível.
Tripulações e passageiros estão acantonados na sala de espera e nos corredores do aeroporto, gritando slogans contra o governo.
O Batalhão da POLÍCIA DE CHOQUE chega batendo em todos, inclusive nos terroristas.
Os árabes são conduzidos à Esquadra da PSP do aeroporto, acusados de tráfico de drogas, em face de flagrante forjado pelos próprios polícias, que "plantaram" papelotes de cocaína nos bolsos dos dois. Às 18 horas, aproveitando uma manifestação dos guardas prisionais clamando subsídio de risco, eles conseguem fugir da prisão no meio da confusão e do tiroteio das brigadas anti-motim da PSP que entretanto tinha sido destacada para o local pelo Ministro da Administração Interna.
Às 19h05m, os muçulmanos, ainda ensanguentados, dirigem-se ao balcão da TAP para comprar as passagens. Mas o funcionário que lhes vende os bilhetes omite a informação de que os voos da companhia estão suspensos por tempo indeterminado. Eles, então, discutem entre si: começam a ficar em dúvida se destruir Lisboa, no fim de contas, é um acto terrorista ou uma obra de caridade.
Às 23h30m, sujos e mortos de fome, decidem comer alguma coisa no restaurante do aeroporto. Pedem sandes de queijo com limonadas. Só na terça-feira, às 4h35m, conseguem recuperar-se da intoxicação alimentar de proporções equinas, decorrente da ingestão do queijo estragado usado nas sandes. Eles foram levados para o Hospital de Santa Maria, depois de terem esperado três horas para que a ambulância do INEM chegasse e percorresse diversos hospitais da rede pública até encontrar uma vaga. No HSM, foram atendidos por uma enfermeira feia e mal-humorada. Eles tiveram de esperar dois dias para serem examinados, por causa da cólera causada pela limonada feita com água contaminada por coliforme fecal.
Debilitados, só terão alta hospitalar no domingo.
Domingo, 18h20m: os homens de Bin Laden saem do hospital e chegam perto do estádio de Alvalade. O Benfica acabara de perder com o Sporting. A claque dos NO NAME BOYS confunde os terroristas com integrantes da JUVELEO e dá-lhes uma surra sem precedentes. O chefe da claque abusa sexualmente deles.
Às 19h45m, finalmente, são deixados em paz, com dores terríveis pelo corpo, em especial na área proctológica. Ao verem uma roullote de venda de bebida nas proximidades, decidem embriagar-se uma vez na vida e comer umas sandes de couratos (mesmo que seja pecado!).
Tomam um bagaço adulterado com metanol e precisam voltar ao Santa Maria. Os médicos também diagnosticam gonorreia.
Segunda-Feira, 23h42m: os dois terroristas fogem de Lisboa escondidos na traseira de um camião de electrodomésticos, assaltado horas depois na Serra da Musgueira. Desnorteados, famintos, sem poder andar ou sentar-se, eles são levados por uma carrinha de Apoio aos Sem Abrigo, organização ligada aos direitos humanos para a área metropolitana de Lisboa. Viajam deitados de lado. Na capital novamente, deambulam o dia todo à cata de comida e por volta das 20 horas acabam adormecendo debaixo da marquise de uma loja na Rua do Coliseu, no centro. A Polícia Judiciária não revelou o hospital onde os dois foram desta vez internados em estado grave, depois de espancados quase até à morte por um grupo de SKINHEADS.
Sabe-se que a Polícia Judiciária deixou de se preocupar e vigiar estes membros da Al Qaeda por considerar que as suas intenções foram desvanecidas e já não constituem qualquer tipo de perigo à integridade nacional, e até os está a ajudar, tentando encontrar uma organização humanitária que lhes possa dar apoio para o regresso ao Afeganistão, isto tudo a pedido dos mesmos.


*Raquel Freitas

De antologia

Cheiro a Weimar

Luciano Amaral


Há dois meses, um furacão trouxe para o prime time televisivo imagens dramáticas do lado menos feliz da sociedade americana a pobreza de certos bairros negros. Correu então uma incontida alegria pela pena dos comentadores, que se empanturraram numa verdadeira orgia de bordoada na América, no neoliberalismo selvagem e, claro, no compêndio dos dois, o Presidente Bush.

Agora, não foi preciso um furacão para mostrar o lado mais pobre e mais podre da sociedade francesa, mas ainda não se viu a mesma desenvoltura para sovar a Europa e o modelo social europeu. Haveria até bastantes razões para isso, usando o mesmo elevado padrão intelectual, já que (embora ninguém tenha falado nisso) também na Dinamarca (na Escandinávia das delícias da nossa classe política) os subúrbios de Ahrus conheceram episódios parecidos, tendo mesmo surgido carros queimados em Bruxelas e em três cidades alemãs.

Em vez da metralha deste tipo de disparates, aquilo que apareceu foi uma espécie de inútil gongorismo sociológico, misturado com umas suavidades sobre "desafios para o futuro", para além da tentativa apatetada de encontrar um Bush local, na pessoa de Nicolas Sarkozy.

Num continente onde o único instrumento intelectual que tem sido desenvolvido consiste no ódio à América e ao neoliberalismo, não admira a pobreza analítica e a incapacidade para perceber a tragédia na altura em que ela bate à nossa própria porta. Quando não se pode atirar a matar a Bush, não resta nada.

Vale a pena, no entanto, tentar perceber um pouco melhor aquilo que se passa. Só que tentar percebê-lo requer lidar com temas que ninguém na Europa quer discutir a sério o comportamento demográfico dos europeus, a imigração, o Estado Social e o radicalismo islâmico

Na origem, está o comportamento demográfico, que actualmente não garante a substituição de gerações na Europa. Muitas vezes não se repara como é estranha a vaga de imigração para o continente.

A imigração em geral não depende apenas da existência de níveis de vida muito diferentes entre dois territórios. Depende sobretudo da existência de postos de trabalho por preencher no território que é mais rico. As grandes vagas de (e)imigração dos séculos XIX e XX fizeram-se para países com um pujante crescimento económico.

Ora, as economias europeias pouco crescem. O que atrai os imigrantes à Europa é a escassez de mão-de-obra para alimentar o Estado Social, que precisa deles para manter os subsídios de desemprego e as pensões de reforma.

É notável a perversidade de todo o mecanismo os europeus recusam-se a entrar em certas profissões desqualificadas, a isso preferindo o desemprego e o subsídio que ele garante.

Mas como elas têm de ser desempenhadas, os imigrantes são convidados a fazê-lo. Aceitam condições de trabalho e remunerações intoleráveis para um europeu original. Já os seus filhos recusam o mesmo destino. Não só as suas expectativas são mais elevadas, como, sendo cidadãos plenos, recorrem livremente às esmolas do welfare state.

É assim oferecido à segunda geração um incentivo ao desemprego. E deste modo se alimenta a elevada taxa de desemprego que caracteriza as sociedades europeias, a qual tem de ser coberta por novos imigrantes, que voltam a aceitar horríveis condições laborais. Afinal, aquele que é suposto ser o modelo de protecção social mais sofisticado não dispensa a existência de uma subclasse permanente, sem plenos direitos económicos, cívicos e políticos.

Incapazes de lhes oferecerem oportunidades para além do perpétuo subsídio de desemprego, os países europeus remetem os filhos de imigrantes para aldeias etnográficas, onde, em nome do multiculturalismo, os deixam prosseguir hábitos tantas vezes contrários à lei e à moral tradicionais europeias.

Onde a imigração islâmica predomina, abundam os casamentos forçados, a poligamia, a violação iniciática e a excisão vaginal. Independentemente de, poucos metros ao lado, vigorar o princípio da total emancipação feminina.

Não vale a pena tapar o sol com a peneira e não reconhecer que os amotinados de França são de origem islâmica, muitos sob o efeito das prédicas dos imãs locais, que destilam o mais puro ódio contra a sociedade ocidental decadente. Este é o mesmo caldo de cultura que nos deu o assassino de Theo van Gogh e os bombistas do 7 de Julho.

E agora, depois de 15 dias de manifestação de ódio dos filhos de imigrantes pela sociedade que acolheu os seus pais, o que vai fazer a França tradicional? A França branca e dos imigrantes de primeira geração (onde, de resto, se encontra grande número de votantes em Le Pen)?

Atrevo-me a sugerir (esperando, porém, que um milagre aconteça) que fará uma de duas coisas (ou as duas juntas) igualmente trágicas ou demonstrar uma compreensão ainda maior pela desgraça dos "jovens rebeldes", assim contribuindo para aprofundar a deliquescência da autoridade republicana, ou afirmar um ódio radical ao "estrangeiro". Parece uma situação sem saída? Parece. Mas há circuntâncias em que assim é. Também a fraqueza da Alemanha de Weimar não tinha uma solução feliz.

sexta-feira, junho 03, 2005

Notas de 500 euros

O Banco Central Europeu e a Organização Mundial de Saúde, revelaram que as notas de 500 euros contêm uma substância altamente cancerígena.

O Governo diz que os portugueses estão totalmente fora de perigo...

País geométrico

Sabem porque Portugal é um país geométrico?

Porque está cheio de problemas bicudos, discutidos em mesas redondas, por bestas quadradas.

Caminhos errantes

Graças ao Sexo dos Anjos descobri um blog de um verdadeiro intelectual e reencontrei um amigo. Vale a pena visitar.

Teoria da Conspiração

Essa história da conspiração sionista é ridícula. Será que o amigo prefere os Imans e Mullas da Mafoma a governar aquele pedaço de terra abençoado? A não serem cristãos que ao menos sejam judeus!

Quanto a Strauss e os NeoCons, anda a ler muita teoria da conspiração na Net (laroche, presumo...), mas com pouco espírito crítico.

Uma sugestão: o seu mestre, Julius Evola publicou um livro intitulado “Revolta conta o Mundo Moderno, fascinante mas completamente mitómano. Numa linha mais racional, existe “Revolt Against Modernity: Leo Strauss, Eric Voegelin, and the Search for a Postliberal Order”. Leia e compare, começando por aqui.

terça-feira, maio 17, 2005

Relações perigosas?

Apocalípticos e Integrados...

É por estas e não por outras que, às vezes, me sinto integrado...

Merci, Sophie!

quinta-feira, maio 12, 2005

Nação Zulu

O anúncio do programa da TSF dedicado à descolonização, despertou algumas reminiscências antigas. Lembrei-me, por exemplo, de uma situação que ilustra bem a dita.
Não posso deixar de a partilhar, esclarecendo que se passou num avião da Força Aérea que fazia a ponte Lisboa – Luanda –Lisboa.


Ah, antes que me esqueça, o piloto, militar nas horas vagas, trabalhava activamente numa célula cancerosa do PCP, apregoando as vantagens de Portugal ceder o poder às vanguardas revolucionárias de Angola.


“- Senhoras e Senhores, o avião está a perder altitude e toda a bagagem deve ser atirada fora! – berra um piloto barbudo e mal fardado.

Apesar de mais coisas serem lançadas fora, o avião continua a perder altitude.

- Estamos ainda a baixar! Temos que atirar fora algumas pessoas... - avisa o piloto.

Há um grande rebuliço entre os passageiros. E continua o piloto...

- Para fazer isso, os passageiros serão jogados fora em ordem alfabética! Assim, há algum "Africano" a bordo?

Ninguém se move.

- "B"... algum Black a bordo? "

Nada.

- "C"... algum Crioulo a bordo? "

Continua, nada.

- "D"...alguém De cor?

De novo ninguém se mexe.

- "E"....algum mais Escurinho?

Nisto, um pequeno menino pretinho pergunta ao pai:

- Pai? Afinal, o que somos nós?

- Esta noite, filho, nós somos Zulus...”


Um abraço aos meus irmãos Zulus.

Feitos do Morgado de Nafarros, “D.” Nuno do Paço Perdido

No outro dia, em exercício abnegado de praxis straussiana (o Leo é um compincha recorrente), aceitei o convite para as comemoração dos 30 anos da Constituinte, que decorreram na Assembleia da República.

Um sociólogo chamar-lhe-ia trabalho de campo... Eu prefiro encarar a façanha como um ensaio de penitência.

Refiro este pecadilho porque durante o almoço, servido nos antigos claustros, estudei atentamente a pose de uma das mais novéis estrelas do nosso firmamento parlamentar. Isso mesmo: falo do Sr. Engº Fadista “D.” Nuno da Câmara Pereira, lídimo militante do moribundo PPM que agora enobrece com o seu fidalgo traseiro os assentos das cadeiras de S. Bento. Tudo graças à visão (ou falta dela) do antigo Prime Minister.

Meu Bele, o matarruane é cá um cromo. Parece que estou a vê-lo a passear a sua barba aristocrática de três dias, distribuindo cumprimentos à esquerda e à direita dos Passos Perdidos a tipos que nem sequer lhe respondiam, intimidados quiçá pela insígnia (contrafaccionada) da Ordem de S. Miguel da Ala, que o cançonetista ostentava ao peito.

Mas o pior foi quando o dito cujo atacou os inocentes croquetes que jaziam indefesos nas mesas. Foi um massacre, bem regado com um tinto apropriadamente sanguíneo. Acolitado pelo fiel escudeiro Pignatelli (de barba à boer), o novo Lidador distribuiu espadeirada da antiga num desditoso presunto. Parecia que estava a desancar na Mafoma. Jasusa!

O Mota Amaral só se benzia e o apache Jerónimo estava embascado por ver que o Morgado de Nafarros ultrapassava em voracidade plebeia o mais paisano dos comunas.

Claro está que o meu dia se saldou por uma indigestão provocada, não pelo hermeneuta do “cavalo ruço”, mas pela cupidez de alguns sipaios do PS...

Já a Ana Drago, se estivesse sempre calada, talvez fosse minimamente suportável, pois tem um sorriso simpático. Aquelas idas em Bloco às casas de banho e o pivete a eucalipto, levam-me a crer que o Ayatollah Louçã - qual Velho da Montanha hodierno - controla os membros do grupo parlamentar do BE à base de ganzas, talvez até “cavalo”. Os seus Feddhayin julgam assim que estão a um passo suicida do Paraíso Vermelho e da contemplação perpétua da face de Trotsky. Por isso, salmodiam hipnoticamente aquelas barbaridades.


Puxem o autoclismo, se fazem o favor!

quarta-feira, maio 11, 2005

Os desafios do Multiculturalismo

Reproduzo abaixo a troca de correspondência em desespero crescente da DRH da minha empresa. É um bom testemunho da globalização interior e dos desafios que este maravilhoso processo coloca à nossa sociedade.

A Patrícia, coitada, até então uma profissional promissora que só desandava do escritório lá para as 11 da noite (dizem que era para não ter de aturar o marido, mas cá para mim era desejo de progredir na carreira) não soube lidar com o processo e passou-se. Pertence agora a uma dessas seitas OVNIS. Acredita que veio do planeta Sirius e que está na eminência de para lá voltar, a bordo da carreira espacial nº 15.


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De: Patrícia Gomes - Directora de Recursos Humanos COMUNICADO PARA TODOS OS FUNCIONARIOS.
Data: 2 de Dezembro
Assunto: Festa de Natal

Tenho o prazer de informar que a festa de Natal da empresa será no dia 23 de Dezembro, com início ao meio-dia, no salão de festas privativo da Churrascaria Grill House. O bar estará aberto com várias opções de bebidas. Teremos uma pequena banda tocando canções tradicionais de Natal... sinta-se à vontade para se juntar ao grupo e cantar! Não se surpreenda se o nosso Vice-Presidente aparecer vestido de Pai Natal! A árvore de Natal terá as luzes acesas às 13:00. A troca de presentes de "amigo secreto" pode ser feita em qualquer altura, entretanto, nenhum presente deverá exceder EUR10,00, a fim de facilitar as escolhas e adequar os gastos a todos os bolsos. Este encontro é exclusivo para funcionários e família. Na ocasião, o nosso Vice Presidente fará um discurso bastante especial.

Feliz Natal para todos.
Patrícia

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De: Patrícia Gomes - Directora de Recursos Humanos COMUNICADO PARA TODOS OS FUNCIONARIOS.
Data: 3 de Dezembro
Assunto: Festa de Natal

De maneira alguma o memorando de 2 de Dezembro sobre a Festa de Natal pretendeu excluir os nossos funcionários judeus! Reconhecemos que o Chanukah é um feriado importante e que costuma coincidir com o Natal, mas isso não acontecerá este ano. Portanto, passaremos a chamá-la "Festa do Fim do Ano" pois teremos em conta também todos os outros funcionários que não são cristãos. Não haverá árvore de Natal. Nada de canções de natal nem coral. Teremos outros tipos de música que agrade a todos. Felizes agora? Boas festas para vocês e suas famílias, Patrícia

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De: Patrícia Gomes - Directora de Recursos Humanos COMUNICADO PARA TODOS OS FUNCIONARIOS.
Data: 4 de Dezembro
Assunto: Festa do Fim do Ano


Em relação ao bilhete (anónimo) que recebi de um membro dos Alcoólicos Anónimos solicitando uma mesa para pessoas que não bebem álcool... terei todo o prazer em atender o pedido, mas, se eu puser uma placa na mesa a dizer "Exclusivo para os AA", vocês deixarão de ser anónimos, não será?... Como faço então? Quanto à troca de presentes, esqueçam. Não será organizada uma vez que os membros do sindicato acham que 10 euros é muito dinheiro e os executivos acham que 10 euros é muito pouco para um presente. Portanto não será organizada NENHUMA TROCA DE PRESENTES. De acordo?
Patrícia

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De: Patrícia Gomes - Directora de Recursos Humanos COMUNICADO PARA TODOS OS FUNCIONARIOS.
Data: 5 de Dezembro
Assunto: Festa do Fim do Ano

Mas que grupo heterogéneo o nosso!!! Eu não sabia que no dia 20 de Dezembro começa o mês sagrado do Ramadão para os muçulmanos, que proíbe comer e beber durante as horas do dia. Lá se vai a festa! Agora a sério, entendemos que um almoço nesta época do ano seja um problema para a crença de nossos funcionários muçulmanos..... Talvez a Churrascaria Grill House possa assegurar o serviço de buffet até à noite ou então, embalar tudo para vocês levarem para casa nas marmitas. Que acham? E agora mais novidades: consegui que os membros dos "Vigilantes do Peso" se sentem o mais longe possível do buffet das sobremesas; as mulheres grávidas poderão sentar-se o mais perto possível das casa de banho; os homossexuais podem sentar-se juntos; as mulheres homossexuais não terão que se sentar junto dos homens homossexuais, que terão uma mesa própria, e sim, haverá um arranjo de flores no centro da mesa dos homens homossexuais; teremos assentos mais altos para pessoas baixas; e estará disponível comida com baixas calorias para os que estão de dieta. Nós não podemos controlar a quantidade de sal utilizada na comida, portanto sugerimos que as pessoas com tensão alta provem a comida antes de comerem. E, claro, haverá mesas para fumadores e outras para não fumadores. Esqueci alguma coisa?
Patrícia

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De: Patrícia Gomes - Directora de Recursos Humanos COMUNICADO PARA TODOS Fxxxxx DA Pxxxx QUE TRABALHAM NESTA EMPRESA.
Data: 6 de Dezembro
Assunto: Festa do Fim do Ano da PORRA


Vegetarianos!?!?!??!

Sim, vocês também tinham que dar a vossa opinião de merda ou reclamar de alguma coisa!... Nós manteremos o local da festa na Churrascaria Grill House; quem não gostar que se fxdx! Não vá, desampare a loja! Ou então, como alternativa, seus fedorentos, podem sentar-se afastados, na mesa mais distante possível da tal "churrasqueira da morte" - como vocês lhe chamam. E terão também a vossa mesa de saladas de merda, incluindo tomates ecológicos da casa do c.lho & arroz pegajoso para comer com pauzinhos. Aqueles que, naturalmente, ainda não gostarem, podem enfiar tudo no cu. Mas como vocês devem saber, os tomates também têm sentimentos! Os tomates gritam quando vocês os cortam em fatias. Eu mesma os ouvi gritar! Eu estou a ouvi-los gritar agora mesmo!!!!! Ah, espero que vocês todos, mas todos, os parvos dos crentes e os cretinos dos ateus, os paneleiros, as fufas, os estupores dos fumadores e os chatos dos não fumadores, os cobardes dos bêbedos anónimos e os fedorentos dos vegetarianos, todos vocês sem excepção, tenham uma merda de fim de ano! E que guiem bêbados e morram todos, todinhos espatifados e esturricados por aí. Entenderam?

Da Vaca, directamente para a p. que os pariu!

Red Kotler

O Kotler é o Marx dos novos tempos, recrutando os seus neófitos entre os intelectualmente diminuídos e aspirantes a jovens executivos.

Para esta gente, Marketing Management é o Livro Vermelho, repositório das supremas verdades que lhes permitirão singrar na vida até ao topo da corporate ladder.

Separa-o do fundador do socialismo científico, o facto de não acreditar em nada do que apregoa nos seus livros e o talento que tem para ganhar (muito) dinheiro à custa dos otários que compram as suas banalidades.

Se lhe dedico algum espaço, é apenas porque o as teorias do homem já estão incluídas nalguns curricula de cursos da área das Ciências Sociais. É perigoso... antes a ameaça estava restrita aos gestores.

Gestores de Produto e Directores de Marketing...

... são normalmente o tipo de gente mais superficial que se pode encontrar numa empresa.

Para mim, a sua corporate religion e as respectivas acções de brand building que terão efeitos major no sell in representam o lumpen do lumpen da sociedade capitalista.

Usam e abusam de conceitos bastardos da Psicologia, agrupando comportamentos humanos em extensas folhas de Excel, cujos templates vieram das consultoras do costume, via bancos universitários.

Mas, na verdade dos factos, a sua ciência não passa de um mix vulgarizado (tipo Biblioteca Popular) de algumas noções económicas e sociológicas, devidamente credibilizadas pelo recurso a anglicismos esotéricos.

O pior é que tenho de os aturar todos os dias. É lixado... above e bellow the line.

Definições

Aringa era um tipo de forticação característica da Zambézia, rodeada por um fosso e altas paliçadas.

Macombe é, mais ou menos, sinónimo de Mazambo, Mucazambo e Mambo...