Aringa do Macombe

Reminiscências, estados de alma e impressões do último Muzungo da Zambézia temporariamente em trânsito pela Corte... Expediente para domacombe@yahoo.com

quinta-feira, novembro 10, 2005

Al Qaeda queria explodir o Cristo-Rei em Almada*

Documentos mantidos em sigilo pela Polícia Judiciária revelam que a Al Qaeda, organização terrorista de Osama Bin Laden, ordenou a execução de um atentado em Portugal. O alvo da acção seria a estátua do Cristo-Rei, localizada em Almada.
De acordo com informações obtidas hoje em Lisboa, a ordem de Bin Laden decorreu do ódio que o saudita nutre por símbolos monumentais católicos, que segundo ele representam "um símbolo da globalização dos infiéis".
Demolidor de ídolos e iconoclasta como os talibãs que explodiram estátuas de Buda no Afeganistão, ele destacou dois mujahedins para o sequestro e uso de um avião que seria lançado contra a estátua "símbolo dos infiéis cristãos".
Os registos da polícia Judiciária dão conta de que os dois terroristas chegaram ao Aeroporto Internacional da Portela em 4 de Setembro, Domingo, às 21h47m, no vôo da Air France procedente do Canadá, com escala em Londres.
A missão começou a sofrer embaraços já no desembarque, quando a bagagem dos muçulmanos foi extraviada. Após quase seis horas de peregrinação por diversos guichés e dificuldade de comunicação em virtude do Inglês fortemente marcado por sotaque árabe, os dois saem do aeroporto, aconselhados por funcionários da TAP a voltar no dia seguinte, com intérprete.
A Polícia Judiciária investiga a possibilidade de eles terem apanhado um táxi pirata na saída do aeroporto, pois o motorista percebeu que eram estrangeiros e rodou uma hora e meia dando voltas com eles pela cidade, até abandoná-los em lugar ermo do Casal Ventoso. Aí, acabaram por ser assaltados e espancados por um grupo de toxicodependentes desesperados.
Eles conseguiram ficar com alguns dólares que tinham escondido em cintos próprios para transportar dinheiro e apanharam boleia num camião que fazia distribuição de garrafas de gás.
Na segunda-feira, às 7h33m, graças ao treino de guerrilha que receberam nas cavernas do Afeganistão e nos campos minados da Somália, os dois terroristas conseguem chegar a um hotel do Estoril. Alugaram um carro na Avis e voltaram ao aeroporto, determinados a sequestrar um avião e atirá-lo bem no meio dos braços abertos do Cristo-Rei.
Enfrentam um congestionamento monstruoso na 2ª circular e ficam mais de 3 horas bloqueados no Campo Grande por causa de uma manifestação de estudantes e professores em greve, e na Av. Do Brasil são-lhes roubados os relógios por um gang da Zona J.
Às 12h30m, resolvem ir para o Centro da cidade e procuram uma casa de câmbio para trocar o pouco que sobrou de dólares. Recebem notas de 100 Euros falsas. Por fim, às 15h45m chegam ao aeroporto da Portela para sequestrar um avião. Os pilotos da TAP estão em greve por mais salário e menos horas de trabalho.
Os controladores de vôo também pararam (querem equiparação aos pilotos). O único avião na pista é da AIR PORTUGÁLIA, mas está sem combustível.
Tripulações e passageiros estão acantonados na sala de espera e nos corredores do aeroporto, gritando slogans contra o governo.
O Batalhão da POLÍCIA DE CHOQUE chega batendo em todos, inclusive nos terroristas.
Os árabes são conduzidos à Esquadra da PSP do aeroporto, acusados de tráfico de drogas, em face de flagrante forjado pelos próprios polícias, que "plantaram" papelotes de cocaína nos bolsos dos dois. Às 18 horas, aproveitando uma manifestação dos guardas prisionais clamando subsídio de risco, eles conseguem fugir da prisão no meio da confusão e do tiroteio das brigadas anti-motim da PSP que entretanto tinha sido destacada para o local pelo Ministro da Administração Interna.
Às 19h05m, os muçulmanos, ainda ensanguentados, dirigem-se ao balcão da TAP para comprar as passagens. Mas o funcionário que lhes vende os bilhetes omite a informação de que os voos da companhia estão suspensos por tempo indeterminado. Eles, então, discutem entre si: começam a ficar em dúvida se destruir Lisboa, no fim de contas, é um acto terrorista ou uma obra de caridade.
Às 23h30m, sujos e mortos de fome, decidem comer alguma coisa no restaurante do aeroporto. Pedem sandes de queijo com limonadas. Só na terça-feira, às 4h35m, conseguem recuperar-se da intoxicação alimentar de proporções equinas, decorrente da ingestão do queijo estragado usado nas sandes. Eles foram levados para o Hospital de Santa Maria, depois de terem esperado três horas para que a ambulância do INEM chegasse e percorresse diversos hospitais da rede pública até encontrar uma vaga. No HSM, foram atendidos por uma enfermeira feia e mal-humorada. Eles tiveram de esperar dois dias para serem examinados, por causa da cólera causada pela limonada feita com água contaminada por coliforme fecal.
Debilitados, só terão alta hospitalar no domingo.
Domingo, 18h20m: os homens de Bin Laden saem do hospital e chegam perto do estádio de Alvalade. O Benfica acabara de perder com o Sporting. A claque dos NO NAME BOYS confunde os terroristas com integrantes da JUVELEO e dá-lhes uma surra sem precedentes. O chefe da claque abusa sexualmente deles.
Às 19h45m, finalmente, são deixados em paz, com dores terríveis pelo corpo, em especial na área proctológica. Ao verem uma roullote de venda de bebida nas proximidades, decidem embriagar-se uma vez na vida e comer umas sandes de couratos (mesmo que seja pecado!).
Tomam um bagaço adulterado com metanol e precisam voltar ao Santa Maria. Os médicos também diagnosticam gonorreia.
Segunda-Feira, 23h42m: os dois terroristas fogem de Lisboa escondidos na traseira de um camião de electrodomésticos, assaltado horas depois na Serra da Musgueira. Desnorteados, famintos, sem poder andar ou sentar-se, eles são levados por uma carrinha de Apoio aos Sem Abrigo, organização ligada aos direitos humanos para a área metropolitana de Lisboa. Viajam deitados de lado. Na capital novamente, deambulam o dia todo à cata de comida e por volta das 20 horas acabam adormecendo debaixo da marquise de uma loja na Rua do Coliseu, no centro. A Polícia Judiciária não revelou o hospital onde os dois foram desta vez internados em estado grave, depois de espancados quase até à morte por um grupo de SKINHEADS.
Sabe-se que a Polícia Judiciária deixou de se preocupar e vigiar estes membros da Al Qaeda por considerar que as suas intenções foram desvanecidas e já não constituem qualquer tipo de perigo à integridade nacional, e até os está a ajudar, tentando encontrar uma organização humanitária que lhes possa dar apoio para o regresso ao Afeganistão, isto tudo a pedido dos mesmos.


*Raquel Freitas

De antologia

Cheiro a Weimar

Luciano Amaral


Há dois meses, um furacão trouxe para o prime time televisivo imagens dramáticas do lado menos feliz da sociedade americana a pobreza de certos bairros negros. Correu então uma incontida alegria pela pena dos comentadores, que se empanturraram numa verdadeira orgia de bordoada na América, no neoliberalismo selvagem e, claro, no compêndio dos dois, o Presidente Bush.

Agora, não foi preciso um furacão para mostrar o lado mais pobre e mais podre da sociedade francesa, mas ainda não se viu a mesma desenvoltura para sovar a Europa e o modelo social europeu. Haveria até bastantes razões para isso, usando o mesmo elevado padrão intelectual, já que (embora ninguém tenha falado nisso) também na Dinamarca (na Escandinávia das delícias da nossa classe política) os subúrbios de Ahrus conheceram episódios parecidos, tendo mesmo surgido carros queimados em Bruxelas e em três cidades alemãs.

Em vez da metralha deste tipo de disparates, aquilo que apareceu foi uma espécie de inútil gongorismo sociológico, misturado com umas suavidades sobre "desafios para o futuro", para além da tentativa apatetada de encontrar um Bush local, na pessoa de Nicolas Sarkozy.

Num continente onde o único instrumento intelectual que tem sido desenvolvido consiste no ódio à América e ao neoliberalismo, não admira a pobreza analítica e a incapacidade para perceber a tragédia na altura em que ela bate à nossa própria porta. Quando não se pode atirar a matar a Bush, não resta nada.

Vale a pena, no entanto, tentar perceber um pouco melhor aquilo que se passa. Só que tentar percebê-lo requer lidar com temas que ninguém na Europa quer discutir a sério o comportamento demográfico dos europeus, a imigração, o Estado Social e o radicalismo islâmico

Na origem, está o comportamento demográfico, que actualmente não garante a substituição de gerações na Europa. Muitas vezes não se repara como é estranha a vaga de imigração para o continente.

A imigração em geral não depende apenas da existência de níveis de vida muito diferentes entre dois territórios. Depende sobretudo da existência de postos de trabalho por preencher no território que é mais rico. As grandes vagas de (e)imigração dos séculos XIX e XX fizeram-se para países com um pujante crescimento económico.

Ora, as economias europeias pouco crescem. O que atrai os imigrantes à Europa é a escassez de mão-de-obra para alimentar o Estado Social, que precisa deles para manter os subsídios de desemprego e as pensões de reforma.

É notável a perversidade de todo o mecanismo os europeus recusam-se a entrar em certas profissões desqualificadas, a isso preferindo o desemprego e o subsídio que ele garante.

Mas como elas têm de ser desempenhadas, os imigrantes são convidados a fazê-lo. Aceitam condições de trabalho e remunerações intoleráveis para um europeu original. Já os seus filhos recusam o mesmo destino. Não só as suas expectativas são mais elevadas, como, sendo cidadãos plenos, recorrem livremente às esmolas do welfare state.

É assim oferecido à segunda geração um incentivo ao desemprego. E deste modo se alimenta a elevada taxa de desemprego que caracteriza as sociedades europeias, a qual tem de ser coberta por novos imigrantes, que voltam a aceitar horríveis condições laborais. Afinal, aquele que é suposto ser o modelo de protecção social mais sofisticado não dispensa a existência de uma subclasse permanente, sem plenos direitos económicos, cívicos e políticos.

Incapazes de lhes oferecerem oportunidades para além do perpétuo subsídio de desemprego, os países europeus remetem os filhos de imigrantes para aldeias etnográficas, onde, em nome do multiculturalismo, os deixam prosseguir hábitos tantas vezes contrários à lei e à moral tradicionais europeias.

Onde a imigração islâmica predomina, abundam os casamentos forçados, a poligamia, a violação iniciática e a excisão vaginal. Independentemente de, poucos metros ao lado, vigorar o princípio da total emancipação feminina.

Não vale a pena tapar o sol com a peneira e não reconhecer que os amotinados de França são de origem islâmica, muitos sob o efeito das prédicas dos imãs locais, que destilam o mais puro ódio contra a sociedade ocidental decadente. Este é o mesmo caldo de cultura que nos deu o assassino de Theo van Gogh e os bombistas do 7 de Julho.

E agora, depois de 15 dias de manifestação de ódio dos filhos de imigrantes pela sociedade que acolheu os seus pais, o que vai fazer a França tradicional? A França branca e dos imigrantes de primeira geração (onde, de resto, se encontra grande número de votantes em Le Pen)?

Atrevo-me a sugerir (esperando, porém, que um milagre aconteça) que fará uma de duas coisas (ou as duas juntas) igualmente trágicas ou demonstrar uma compreensão ainda maior pela desgraça dos "jovens rebeldes", assim contribuindo para aprofundar a deliquescência da autoridade republicana, ou afirmar um ódio radical ao "estrangeiro". Parece uma situação sem saída? Parece. Mas há circuntâncias em que assim é. Também a fraqueza da Alemanha de Weimar não tinha uma solução feliz.